Educação no combate à desinformação

Opinião

Teorias conspiratórias e informações negacionistas sobre a pandemia de Covid-19 se alastram rapidamente nas redes sociais, formando bolhas desinformativas que viralizam e incitam dúvidas e questionamentos sobre a ciência e ataques à imprensa por grupos extremistas. Em 2020, o cenário desinformativo expandiu nas eleições municipais do país e também promoveu uma onda de conteúdos verdadeiros sendo divulgados fora de contexto para difamar ou denegrir a imagem de adversários políticos. Diante disso, como é possível lidar ou encontrar respostas para combater ou diminuir os efeitos da desinformação no Brasil e no mundo?

341 projetos de verificação ou fact-checking existem/atuam no mundo conforme o último censo do Duke Reporter´s Lab, lançado em 3 de junho de 2021. Apesar da ascensão desses projetos de checagem para frear as fake news, grupos ou usuários que leem ou compartilham a checagem representam um percentual pequeno diante das páginas e grupos que espalham desinformação. Um relatório “Desinformação, mídia social e Covid-19 no Brasil: relatório, resultados e estratégias de Combate” realizado pelos grupos de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais da Universidade Federal de Pelotas juntamente com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O documento apresentou que de um total de 4256 páginas e grupos que compartilharam desinformação no Facebook, apenas 10% dos grupos compartilharam a checagem. Ainda segundo o relatório, grupos politicamente radicais ou altamente ideologizados tendem a proteger as suas crenças através da negação de fatos ou de evidências contrárias. Ou seja, tendem a repudiar o trabalho de verificação feito por agências de fact-checking ou por organizações jornalísticas.


Em 2020, a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP)e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) lançaram a pesquisa “Desinformação On-line e Eleições no Brasil: a circulação de links sobre desconfiança no sistema eleitoral brasileiro no Facebook e no YouTube (2014-2020)”, em que apresenta dados inéditos sobre a circulação de textos e vídeos nas plataformas, com desinformação que tem como alvo a Justiça Eleitoral e as Eleições de forma geral. O estudo se baseou em um corpus de 1.426.687 posts publicados no Facebook, YouTube e Twitter entre os dias 1 e 30 de novembro, período que compreende as eleições municipais de 2020 no Brasil.

Entre os conteúdos observados e analisados:fraude nas urnas, vulnerabilidade das urnas eletrônicas, farsa e manipulação eleitoral, defesa aguda do voto impresso etc. Dentre os principais resultados da pesquisa, o debate sobre voto impresso foi apontado como mobilizado em todas as principais narrativas ocorridas no período analisado de 30 dias, com destaque para a desconfiança na segurança, na transparência e na integridade dos sistemas do TSE. Esses dados revelam o quanto conteúdos com teor negacionista e que promovem desconfiança às instituições públicas e entidades geram confusão e ruídos nas redes sociais.

Para a pós-doutora em comunicação, Pollyana Ferrari e a doutora em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, Margareth Boarini, o negacionismo não só é antigo como se vale de um espectro bastante abrangente, valendo-se, na grande maioria dos casos, do discurso de poder, passando de Galileu a Holocausto, até a crise climática, vacinas e pandemia da Covid-19, entre outros temas. As pesquisadoras refletem que é preciso não apenas empregar as ferramentas tecnológicas mais modernas e eficazes, mas de trabalhar a educação permanente, a quem os especialistas denominam de life long learning, e o exercício do pensamento crítico.

A educação é, sem dúvidas, uma das ferramentas essenciais para combater a desinformação nesse cenário, inclusive o negacionismo, as teorias conspiratórias e o discurso de ódio. Como dizia o saudoso escritor Machado de Assis: “Quem mal lêmal ouvemal falamal vê. … De fato, quem mal lêmal ouvemal falamal vê.”, mas é preciso expandir ou incentivar um pensamento crítico e analítico de cada um, que rompa bolhas desinformativas e partidárias, onde a verdade dos fatos e o respeito pela divergência de opiniões prevaleçam.

Texto: Marta Alencar

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