Uma a cada 55 mil crianças chegam a óbito no Brasil devido à Covid-19?

No Twitter, usuários de Teresina, Minas Gerais e outros estados alegam que apenas uma a cada 55 mil crianças, de 0 a 12 anos, chegam a óbito no Brasil devido à Covid-19. Esses usuários criticam ainda o isolamento social e solicitam o retorno das aulas presenciais em plena pandemia.

Para defender esses dados, um internauta de Minas Gerais baseou os seus argumentos em duas imagens. A primeira imagem (apresentação em slides) classifica a faixa etária, porcentagem de infectados por Covid-19, probabilidade de morte, taxa de morte pela doença e aumento da probabilidade de óbito. A segunda imagem contida na publicação possui uma tabela parecida com a primeira e indica que foi elaborada por um estudo espanhol sobre o desenvolvimento de anticorpos em uma determinada população afetada pelo coronavírus. Porém, a fonte da pesquisa não é citada. A COAR esclarece que o conteúdo é falso, pois não consta em sites de pesquisas ou órgãos de saúde.

O link da pesquisa abaixo da primeira tabela encaminha para um site norte-americano sobre previdência social. Esse site apresenta uma tabela diferente daquela compartilhada no Twitter. Já os dados são referentes à expectativa de vida baseados no ano de 2017 (quando o novo coronavírus ainda não existia). A mesma plataforma ainda notifica os leitores de maneira aleatória e suspeita para pesquisas não associadas a ele.

Pesquisas como a realizada pelo Massachusetts General Hospital (instituição afiliada à Harvard) e pelo hospital infantil Mass General concluíram que as crianças carregam uma carga viral do novo coronavírus muito mais alta em suas vias aéreas, se comparado com adultos hospitalizados em UTIs.

No Brasil já foram registradas pelo menos 341 mortes entre crianças de 0 a 5 anos pelo novo coronavírus. Já a faixa etária de 6 a 19 anos somam 347 mortes pela doença, segundo os dados epidemiológicos divulgados no mais recente boletim do Ministério da Saúde, que consolida dados de 02 a 08 de agosto – ou seja, ainda não traz os números atualizados dos últimos 10 dias.

Entretanto, alguns estados planejam datas para o retorno do ensino presencial, tanto público como privado. Amazonas, Maranhão e Distrito Federal estão permitindo a retomada parcial das atividades escolares.Nesse sentido, há inconformações por parte de professores, pais e alunos. O governo do Maranhão autorizou a reabertura apenas para escolas particulares e municipais. Em Manaus, as escolas particulares retornaram as aulas desde o dia 6 de julho. No Distrito Federal, as aulas devem acontecer de forma gradual a partir do dia 31 de agosto.

Comparativo de óbitos de crianças devido à dengue ou Covid-19 em Teresina

Averiguamos também que a mesma questão é debatida por alguns usuários teresinenses nas redes sociais, que fizeram comparativo de crianças que morrem por dengue, Covid-19 ou Influenza A (gripe H1N1).

Usuário em Teresina critica decisão do prefeito Firmino Filho a partir de um comparativo equivocado.

A partir de informações oficiais da Fundação Municipal de Saúde (FMS), a COAR simulou essas expectativas com o público infantil de Teresina e fez um comparativo com dados de crianças que morreram por causa da dengue ou de Covid-19, entre janeiro a agosto de 2020.

O órgão informou que desde janeiro de 2019 até o fechamento desta matéria, nenhuma criança com menos de 13 anos morreu de Covid-19, dengue ou Influenza A (gripe H1N1). A COAR também entrou em contato com o médico infectologista, Carlos Henrique Nery Costa. O médico explica que os sintomas da Covid-19 são mais leves em crianças. Porém, pode haver um alto nível de transmissibilidade entre elas caso estejam em um ambiente fechado. Nesse sentido, o vírus pode ser repassado para os adultos (seja para professores ou pais). Podemos interligar esse ambiente fechado a locais como escolas.

Com base em informações cedidas pela Secretaria Municipal de Educação de Teresina (SEMEC), os alunos estão aprendendo pelo regime de atividades pedagógicas não presenciais, por meio de aulas online, transmissão de atividades em 5 canais de TV e através de distribuição de atividades impressas para aqueles que não possuem acesso às demais plataformas. São 85 mil alunos incluídos na educação infantil e fundamental de Teresina.

A partir disso, é notável que os estudantes em retorno para as escolas poderiam não apenas se infectarem com muita facilidade, mas transmitirem o vírus para adultos com doenças preexistentes.

Quanto às instituições federais, o Ministério da Educação (MEC) autorizou apenas o ensino a distância até o fim de 2020 e publicou um protocolo de biossegurança para retorno das atividades que devem ocorrer de modo gradual e obedecer os seguintes critérios sanitários:

. Desinfecção frequente da escola;

. Organizar tendas de desinfecção para a comunidade acadêmica;

. Uso de máscaras;

. Grupos menores de alunos dentro da sala de aula;

. Distanciamento de pelo menos 1 a 1,5 metros entre as pessoas;

. Horários diferentes de entrada e saída;

. Afastamento de professores incluídos no grupo de risco.

Em caso de qualquer dúvida, você pode entrar em contato com a nossa equipe pelo WhatsApp: (86) 99517-9773 ou pelo Instagram @coarnoticias.

Escrito por: Maria Luísa Araújo e Marta Alencar

Referências da COAR:

Texto compartilhado no Twitter: 1 e 2

Site norte-americano de seguro social

MEC anuncia protocolo para volta às aulas em institutos federais

G1

Protocolo de Biossegurança para retorno das atividades nas Instituições Federais de Ensino

Estudo americano

COAR faz comparativo de casos de H1N1 e Covid-19 levantados entre janeiro a maio de 2019/2020 em Teresina

A Covid-19 é dez vezes mais letal do que o H1N1, alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo assim alguns perfis de usuários piauienses na internet, incluindo empresários locais da extrema direta, duvidam dessa informação e publicam conteúdos questionando as medidas de isolamento social adotadas em Teresina.

Em diversos conteúdos, os usuários reafirmam que os decretos municipais de isolamento são exagerados e manipuladores. Além disso, os usuários ignoram as estatísticas sobre os casos de infectados e óbitos causados pelo novo coronavírus e creditam que houve mais mortes ou infectados por outras doenças em anos anteriores do que provocados por Covid-19. De antemão, a COAR realizou um comparativo para expor os equívocos dessas declarações sobre a pandemia no estado do Piauí.

Alguns usuários de Teresina questionam dados oficiais

A COAR buscou dados para comparação da situação atual em boletins epidemiológicos disponibilizados na íntegra pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesapi), Fundação Municipal de Saúde (FMS) e Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen).

No primeiro trimestre de 2020, em todo o estado, foi confirmado um aumento em 1.500% de casos de H1N1 em relação ao mesmo período no ano de 2019 segundo levantamento feito pelo Laboratório Central de Saúde no Piauí (Lacen).

Números de casos de H1N1 e Covid-19 em 2020

Conforme informações apuradas, a COAR levantou que foram 128 testes positivos para H1N1 no Piauí somente nos primeiros meses deste ano, de janeiro a março. De acordo com o Lacen nesse mesmo período: 47 óbitos ao todo, sendo 8 de Covid-19, 7 de H1N1, 10 provocados por outros vírus e 22 devido outras causas.

De acordo com dados fornecidos pela FMS, de janeiro ao fim de abril de 2019, houve 6 casos confirmados de H1N1 em Teresina e nenhum óbito registrado por essa causa. Já em 2020, nesse mesmo período, foram notificados 100 casos positivos com 4 resultantes em óbito.

Nesse mesmo período (janeiro ao fim de abril) de 2020 foram registrados, 383 casos de covid-19 com 11 mortes. Um número quase 4 vezes maior em relação aos casos positivos de H1N1.

Até o fim de maio houve um aumento de 1.921 casos positivos para Covid-19 em relação ao mês de abril, totalizando assim 2.304 pessoas infectadas pelo vírus e 78 óbitos a mais, chegando à marca de 89 mortes.

Mais de dois mil casos de Covid-19

Nesta terça-feira (02), o painel epidemiológico da Sesapi mostrou que a capital piauiense alcançou a marca dos 2.531 casos confirmados de infectados com o novo coronavírus e 101 óbitos decorrentes da doença. Ao todo no estado temos 5.828 casos confirmados e 192 óbitos, um número preocupante quando levado em consideração que são decorrentes de uma só doença.

O que diferencia a gravidade entre Covid-19 e H1N1?

A gripe H1N1, ou influenza A, é provocada pelo vírus H1N1, um subtipo do influenzavírus do tipo A. Ele é resultado da combinação de segmentos genéticos do vírus humano da gripe, do vírus da gripe aviária e do vírus da gripe suína, que infectaram porcos simultaneamente.

Existem duas vacinas que protegem contra a infecção pelo H1N1: a trivalente, que imuniza contra dois vírus da influenza A e contra uma cepa do vírus da influenza B, e a vacina tetravalente (ou quadrivalente) que, além desses vírus imuniza contra uma segunda cepa do vírus da influeza B, menos frequente no Brasil e que só deve ser usada a partir dos três anos de idade.

Até o momento, a Covid-19 não possui nenhuma vacina específica. Apenas pesquisas em alguns países estão sendo feitas. Todas ainda seguem em fase de testes, mas sem nenhuma eficácia totalmente comprovada.

O infectologista Carlos Henrique Nery Costa destaca que a gravidade da Covid-19 não se limita apenas à falta de medicação e vacinação.

“Uma diferença substancial entre uma doença e outra é que na Influenza A acontece um fenômeno conhecido como imunidade coletiva, que é a proporção de pessoas que são imunes na população. O que dificulta a contaminação pelo vírus de alguém não imune. Naturalmente as epidemias são controladas por esse fenômeno”.

De acordo com o médico, o número de pessoas com anticorpos capazes de conter a infecção provocada pelo novo coronavírus ainda é pequeno. Não houve até o momento, acúmulo de pessoas resistentes ao vírus, mesmo em países que já passaram pela epidemia, o médico cita os casos da Espanha e da Itália, como exemplos.

“É possível que a imunidade não seja gerada por anticorpos, existem outros tipos de imunidade, como a celular, que o teste de anticorpo não mede. Há a possibilidade de termos uma imunidade coletiva e basicamente não esteja vendo. É possível, apesar de improvável”, destaca.

Custo econômico x Custo de vida

Para o infectologista Carlos Henrique Nery Costa, as medidas adotadas no município e seus resultados estão muito aquém do que deveria ser feito. Tendo em vista a gravidade da situação de acordo com esses dados, é possível perceber a importância de cumprir o isolamento social à risca.

“São dois valores em jogo, que não são comparáveis facilmente. O custo econômico versus o custo de vida. Os gestores (do estado e município) estão fazendo além do que os apoiadores gostariam (…), mas se a opção for defender e optar pela vida, então tem que ser cumprido a rigor. Senão o custo econômico começa a ficar insuportável. Em algum momento, se as coisas continuarem assim, o resultado vai ser um só: abre, apesar dos pesares, e aí é o desastre completo”, finaliza.

Escrito por: Assislene Carvalho e Marta Alencar

Referências da COAR:

  1. Site Sesapi (Fonte 1; Fonte 2)
  2. Site Drauzio Varella (Gripe H1N1)