VERIFICAMOS: FDA não aprovou uso de hidroxicloroquina em todos pacientes com Covid-19

É comum encontrar conteúdos na internet que informam que agências de regulamentação de medicamentos americanas aprovaram a hidroxicloroquina ou qualquer outro medicamento como 100% eficaz no combate à Covid-19. A COAR recebeu nesta sexta-feira (14), um conteúdo que já havia sido desmentindo por outras agências de fact-checking no mês de abril.

Conteúdo falso e com equívocos de informações

O texto que circula na internet tem a identificação da jornalista, Elisa Robson, que se autodeclara da direita clássica, defensora do liberalismo econômico e conservadora nos valores da família, educação e cultura. No entanto, o conteúdo distorce as informações de que Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos, autorizou o uso de hidroxicloroquina para todos os pacientes com Covid-19.

Em publicação no site oficial do órgão, há uma notificação de que no dia 28 de março de 2020, o FDA havia emitido uma Autorização de Uso de Emergência (EUA) para permitir que produtos de sulfato de hidroxicloroquina e fosfato de cloroquina doados ao Estoque Nacional Estratégico(SNS) para ser distribuído e usado para determinados pacientes hospitalizados com COVID-19, ou seja, em estado grave e não para todos os pacientes. Além disso, em junho deste ano, a FDA determinou que a hidroxicloroquina e cloroquina para o tratamento de casos do novo coronavírus não atendem aos critérios legais, pois é improvável que sejam eficazes no tratamento da Covid-19 de acordo com as últimas evidências científicas. A conclusão foi publicada nesta segunda-feira (15) em relatório disponível no site da agência. 

“Estamos particularmente preocupados com o fato de que medicamentos não aprovados que afirmam curar, tratar ou prevenir doenças graves possam fazer com que os consumidores adiem ou interrompam o tratamento médico apropriado, resultando em danos graves ou com risco de vida. Atualmente, não há tratamento aprovado ou medida preventiva para COVID-19. A FDA e a FTC estão monitorando de perto as mídias sociais, o mercado online e os relatórios recebidos de produtos COVID-19 fraudulentos no mercado”, declaração do órgão em site oficial.

É falso também que o CEO da farmacêutica suíça Novartis, Vasant Narasimhan, declarou que tem em mãos o resultado de pesquisas que comprovam a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina em matar o novo coronavírus. Houve algumas publicações sobre testes que vêm sendo feitos pela empresa no perfil pessoal do CEO. No entanto, não há nada diretamente falando sobre a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina.

Em seu perfil pessoal, o CEO da Novartis informa que a curto prazo estão tentando reaproveitar os medicamentos existentes para ajudar a tratar COVID ー 19 com testes clínicos rigorosos.

É verdade que a empresa farmacêutica anunciou a doação de 130 milhões de doses do medicamento “para usar protocolos de tratamento padrão para pacientes hospitalizados”. Ainda segundo a companhia, a hidroxicloroquina é administrada como parte de um “regime terapêutico”, no tratamento de pacientes com a Covid-19. Além disso, na mesma publicação, a farmacêutica esclarece que embora os resultados iniciais dos estudos da utilização de hidroxicloroquina (HCQ) em casos de COVID-19 tenham sido promissores, ainda não há nenhum tratamento aprovado disponível.

Uma investigação feita pela agência Lupa e publicada no dia 27 de julho, mostra o mais novo e importante estudo feito no Brasil sobre o uso da hidroxicloroquina no combate ao novo coronavírus. A investigação feita por pesquisadores brasileiros apresenta o estudo no periódico New England Journal of Medicine, que comprova que a droga é ineficaz no tratamento de casos leves e moderados da Covid-19.

Escrito por: Marta Alencar

Referências da COAR:

Novartis

CNN

CEO da Novartis

Lupa

Municípios do interior do Piauí têm pouca quantidade de EPIs?

Na última quarta-feira (29) publicamos uma matéria sobre a situação dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) em vários municípios do Estado. A principal motivação foram as denúncias dos profissionais de saúde recebidas em nossa linha de transmissão no WhatsApp. Devido à repercussão da matéria a COAR atualizou dados de novas denúncias junto ao Conselho Regional de Enfermagem do Piauí (Coren-PI).

Segundo o último relatório, Teresina já conta com 22 notificações por falta de EPI’s, em seguida Picos com 6 e Parnaíba, 5. A presidente do Conselho Regional de Enfermagem, Tatiana Melo, explicou que a contabilização é feita com base em informações repassadas por meio do e-mail institucional e da Ouvidoria, já que muitos profissionais têm receio de fazerem as denúncias abertamente.

Relatório com número de denúncias contabilizadas pelo Coren-Pi

No relatório é possível perceber que alguns municípios possuem denúncias oficiais. Também é importante salientar que a maioria é feita por WhatsApp, onde é mais difícil contabilizar na íntegra quantas denúncias foram realizadas desde quando o novo coronavírus chegou ao Estado.

Investigação

Embora o Governo do Estado contribua com a compra de equipamentos e outras atividades, as gestões municipais também devem investir na saúde. No entanto, os municípios de pequeno porte já lidam com grandes dificuldades financeiras.

Diante desta situação, a COAR averiguou a situação em Porto Alegre, Pimenteiras, Oeiras e em outros municípios para verificar se estão faltando equipamentos nesses locais ou não. A nossa equipe ainda elencou quais medidas vêm sendo adotadas pelo governo para amenizar o impacto da pandemia. Além disso, averiguamos como as gestões municipais estão lidando com a situação.

Informação que circula em grupos de WhatsApp sobre a falta de equipamentos de proteção para profissionais de saúde

Uma dessas publicações cita o município de Porto Alegre do Piauí, localizado a 415 km de Teresina. Segundo o conteúdo, o município teria recebido apenas 88 máscaras descartáveis, 12 álcool em gel, dois pares de propés descartáveis e duas caixas de luvas. A COAR entrou em contato com a Prefeitura e pôde constatar que a informação é verdadeira. A quantidade de equipamentos é até menor que a informada pela mensagem.

“O que mais chama atenção são as quatro unidades de propés descartáveis que foram enviadas. Para que se tenha uma ideia, isso é suficiente apenas um dia de trabalho de um profissional. Recebemos apenas no dia 17. Desde março já estamos comprando EPI´s, mesmo com dificuldades para encontrar”, disse a secretária municipal de saúde, Claudijane Soares.

Ainda segundo a gestora, o município recebeu apenas esse material do governo – até o fechamento desta matéria -, embora a gestão municipal tenha comprado mais equipamentos para garantir uma quantidade satisfatória para enfrentar a pandemia.

Parnaíba

Parnaíba é o segundo município mais populoso do Piauí e também em números de casos do Covid-19, perdendo apenas para Teresina. Diante dos casos levantados na cidade, a COAR recebeu a denúncia de que alguns servidores estão com os salários atrasados. Para confirmar ou não esta informação, a COAR entrevistou o representante do Conselho Regional de Enfermagem do Piauí (Coren-PI), Flaviano Aragão, que comunicou que todos profissionais contratados já receberam a remuneração referente ao mês de fevereiro. O pagamento começou no dia 24 de abril e foi promovido até esta terça-feira.

A COAR entrou em contato também com a secretária de saúde do município, Rejane Moreira, que garantiu que 10 leitos de UTI serão entregues até sexta-feira (1). Sobre a nova remessa de equipamentos que será distribuída pelo governo, a gestora da pasta comunicou que testes rápidos de Covid-19 do Ministério da Saúde já chegaram ao local.

“Recebemos poucos equipamentos de proteção, inclusive recebi algumas caixas, que deram apenas 16 máscaras para cada unidade de saúde. Estamos até comprando com fornecedores, equipamentos com valores altíssimos e com prazos enormes. Mas diante da situação é quase impossível aguardar”, lamentou a secretária.

São Raimundo Nonato

Terceiro colocado em número de casos de Covid-19 no Estado, a COAR conseguiu informações com uma fonte – solicitou o sigilo – que o Governo do Piauí não deu previsão para a entrega de mais equipamentos para os profissionais de saúde. Ainda segundo a fonte, que atua no setor de saúde, o município recebeu apenas quatro aventais, quatro frascos de álcool em gel, nenhuma caixa de máscara, 20 tocas e quatro óculos de proteção. A última entrega foi feita há mais de três semanas.

A COAR conseguiu com exclusividade um documento, que consta com a autenticação da Secretária de Estado da Saúde (Sesapi), junto à fonte (não identificada), que apresenta a quantidade de equipamentos recebidos pelas cidades circunvizinhas. No documento, observa-se que alguns municípios não receberam caixas de máscaras, e apenas uma quantidade mínima de equipamentos. Para alguns municípios, a lista revela que apenas uma quantidade de dois óculos, nove unidades de tocas, duas unidades de álcool em gel e apenas um avental.

Decidimos ocultar por questões éticas, os nomes dos profissionais que receberam e assinaram o documento.

Picos

Com seis casos confirmados no município, profissionais do Hospital Justino Luz, com medo de serem infectados, denunciaram a falta de Equipamentos de Proteção Individual na unidade de saúde. Segundo relatos, também não há materiais de entubação.

Contatamos a assessoria de comunicação do Hospital Regional Justino Luz sobre as denúncias feitas sobre a escassez de EPIs. A assessoria disponibilizou a seguinte nota:


“A entrega é feita de acordo com cada setor. O profissional que recebe o seu kit de EPI no início de cada plantão. Todos os profissionais, ao receberem seu kit, assinam a ficha de recebido, exatamente para controle de entrega dos equipamentos. Não procede, portanto, a informação de que os funcionários estejam sendo obrigados a assinar sem receber os EPIs”.

Também é informado que a Secretaria de Estado da Saúde destinou no último domingo (26) ventiladores para o hospital de Picos. Conversamos com José Nilton, técnico em enfermagem, locado no hospital regional Justino Luz, que informou que “não está 100%” mas tem materiais de proteção.

Oeiras

A COAR entrou em contato com uma técnica de enfermagem da Unidade Básica de Saúde (UBS), que também não quis se identificar, temendo represálias. Ela confirmou a falta de equipamentos e contou que os profissionais têm medo de serem infectados. No local, faltam máscaras N95, álcool 70 (líquido e em gel), além de aventais apropriados para os profissionais.

Ainda em Oeiras, entramos em contato com um funcionário – não identificado (conforme sigilo da fonte) – do Hospital Regional Deolindo Couto, que está faltando equipamentos adequados para os funcionários. Também confirmou que dois colaboradores da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) foram infectados.

“É apenas disponibilizada uma máscara cirúrgica para um plantão de 12 horas. Mas sabemos que uma máscara, no máximo, deva ser usada por duas horas”, denunciou o funcionário Hospital Regional Deolindo Couto.

Ao ser entrevistado pela equipe da COAR, o diretor-geral do hospital Regional Deolindo Couto de Oeiras, Alypio Sady, negou que haja falta de equipamentos e afirmou que a unidade de saúde vem cumprindo os protocolos de utilização dos EPIs. A nossa equipe tentou entrar em contato com a secretaria de saúde de Oeiras, mas não conseguimos contactá-la, apesar de inúmeras tentativas.

Floriano

Para conferir a quantidade de EPI, contatamos a assessoria de comunicação, que informou que a remessa já chegou e o município recebeu aventais, luvas, e outros equipamentos. A assessoria enfatiza que a maior quantidade fornecida foi de máscaras. Sobre a compra com fornecedores, ela lamenta que os preços estão altos e compara que antes uma máscara custava R$ 0,50, e hoje é vendida a um preço de R$3,50.

Pimenteiras

Em entrevista à COAR, a coordenadora da campanha de Covid-19,  Mayara Lacerda, narrou que a Sesapi enviou uma quantidade mínima de equipamentos de proteção individual.

“O município só não está sofrendo com desabastecimento de equipamentos graças ao tempo de preparação que tivemos”, contou a coordenadora.

Abaixo segue a lista de equipamentos listados pela coordenadora que estão disponíveis para os profissionais:

A imagem discrimina os equipamentos de proteção individual no município de Pimenteiras-Pi

Pedro II

O diretor de Enfermagem do Hospital  Maternidade Josefina Getirana Neta, Williames Rodrigues, garante que até o fechamento desta matéria, os equipamentos estão em quantidade adequada para atender a demanda do município e que não há denúncias oficiais sobre a falta de quaisquer equipamentos.

Novos equipamentos

A Secretária de Estado da Saúde (Sesapi) foi contatada para esclarecer a situação. Através da assessoria de imprensa, foi respondido que a pasta é responsável apenas pela distribuição dos equipamentos. A determinação da quantidade por município segue orientações do Ministério da Saúde. Ainda de acordo com a Secretaria, a expectativa é que uma nova remessa de EPI’s seja enviada ainda esta semana.

Ainda segundo a Sesapi, já foram distribuídos:

– 20.008 unidades de máscaras N95;
– 35.944 unidades de avental descartável: manga longa, impermeável;
– 10.109 unidades de protetor facial descartável;
– 22.921 unidade de álcool em gel;
– 15.565 unidades de álcool etílico;
– 305.400 unidades de máscara cirúrgica descartável;
– 161.924 unidades de luvas de procedimentos;
– 53.300 unidades de toucas;
– 12.400 unidades de Propés;
– 1.752 unidades de óculos de proteção.

Sálarios Atrasados

Devido a denúncias sobre o atraso de salários dos servidores, procuramos a presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Piauí (Coren-PI), Tatiana Melo. Ela contou à equipe que não tem nenhuma instituição totalmente regularizada, mas a maioria dos hospitais está repassando o pagamento referente a fevereiro. Tatiana ressalta que infelizmente não tem cronograma para os pagamentos.

“Todas essas instituições receberam o referente a fevereiro, ainda não receberam o mês de março, mas já era pra ser pago abril no início do mês. Não temos previsão para receber março. O pagamento está funcionando assim: em março eles pagaram janeiro e em abril estão pagando fevereiro”, finaliza.

Alguns Municípios que já estão regularizando o pagamento de feveireiro:

  • Hospital Regional Justino Luz – Picos
  • Hospital Regional Tibério Nunes- Floriano
  • Maternidade Dona Evangelina Rosa – Teresina
  • Instituto de Doenças Tropicais Natan Portela – Teresina
  • Hospital Estadual Dirceu Arcoverde – Parnaíba (está com 50% dos servidores regularizados)

Por conta de denúncias sobre atrasos de salários no Hospital Regional Justino Luz, a direção se pronunciou através de nota (acima).

A Fundação Estatal Piauiense de Serviços Hospitalares (Fepiserh) deixou  claro que o pagamento referente ao mês de fevereiro, foi regularizado na quinta passada (23). Na quarta-feira (22) foram regularizados os pagamentos geridos pela Sesapi.


Profissionais infectados

O último relatório do Conselho Federal de enfermagem (Cofen), promovido pelo Comitê Gestor de Crises da entidade, pelo menos 6.461 profissionais da área foram afastados por suspeita de COVID-19 no país. Enquanto no Piauí, há suspeita de 36 profissionais infectados – que foram afastados. Os dados divulgados revelam que 1.685 profissionais no país com diagnóstico confirmados com Covid-19 em quarentena, já no Piauí foram detectados 28 profissionais infectados.

Fonte: Comitê Gestor de Crises do Cofen

O número de profissionais infectados cresce exponencialmente. Em Teresina, já são 11 profissionais de enfermagem infectados pela doença, enquanto 28 ainda estão sob suspeita. Esse foi um levantamento feito pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).

Escrito por: Beatriz Mesquita, Sol Rocha, Marta Alencar e Igor Macêdo